| Cuidado com as dívidas! |
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Suprir necessidades ou patrocinar caprichos?
Deus não prometeu pagar todas as 36 prestações do seu carro Okm. Pense nisso antes de assinar o contrato. Deus não manda atrasar o aluguel ou o condomínio porque este mês temos que pagar o novo celular da filha adolescente e o tênis importado (o mais caro da loja) do filho mais velho. Deus não mandou pedir uma cesta básica na igreja enquanto compramos um aparelho novo de DVD “que estava na oferta”. Deus nos garantiu sustento, e garantiu patrocinar os projetos que Ele tem para nós. Veja bem: os projetos que Ele tem para nós.
”- Peço aos irmãos que estejam com alguma necessidade financeira, e que queiram compartilhar isso com esta igreja, que fiquem de pé! “– Foi o que o Pastor da igreja que eu visitava falou naquela manhã, pouco antes do recolhimento das ofertas.
Então assistí umas duas dezenas de pessoas ficarem de pé (isso foi no início de 2001 – imagino como seria hoje)
Em seguida o Pastor continuou:
”- esta igreja assume aqui o compromisso bíblico de ajudar estes irmãos em suas necessidades financeiras. Portanto, os irmãos que assim desejarem, procurem os líderes desta igreja, que, após tomarem conhecimento da situação, decidirão se, quando e como iremos suprir suas necessidades”
Mas esclareceu:
”- aos demais irmãos, fica o encorajamento de contribuirem não só para o sustento da obra desta igreja, mas também para suprir as necessidades dos irmãos. Entretanto, em nome da liderança, alerto a todos que assumimos aqui o compromisso de suprir necessidades que sejam realmente necessidades, mas não o de patrocinar estilos de vida”.
Uau! Fiquei impressionado com a coragem de assumir em público e de púlpito um compromisso assim. Comentei com a minha esposa que eles deviam ser mesmo meio malucos. Biblica e corajosamente corretos, é certo. Mas como evitar a enxurrada de possíveis interesseiros?
Semanas mais tarde, aproveitando de uma certa aproximação que tenho com este pastor e com os líderes desta igreja, perguntei como eles vinham resolvendo a questão no dia a dia.
Quer saber a resposta? Tomo a liberdade de expandir a resposta que ouví neste artigo. Não só exatamente o que ouvi, mas somada ao que eu mesmo viví pouco tempo depois, numa crise profissional e financeira sem precedentes na minha história pessoal (já escreví sobre isso, veja aqui, se quiser). Vivida a crise, pude garimpar algumas convicções. Portanto, mais do que as respostas, segue aqui o que eu realmente penso:
Convicção 1 – assumir que temos uma necessidade financeira e que não conseguimos supri-la sozinhos requer uma “baita” coragem
Um dos líderes daquela igreja me disse: “Os interesseiros não são tantos assim – assumir necessidades é meio humilhante. Só quem tem é que se apresenta”.
É verdade. Ainda mais para os homens. Assumir que falhamos como provedores do nosso lar? É quase como publicar no jornal que somos sexualmente impotentes. Onde fica o nosso orgulho? Talvez seja mais fácil levantar mais um outro “papagaio” no banco, ir rolando os cartões de crédito, sei lá, mas sair dizendo que... ora, o que vão pensar? Aceitar uma cesta básica? Ora, acho que não é caso, não...
Talvez estes exemplos estejam sendo um tanto “agudos”. Mas nenhum de nós precisa chegar lá para se sentir “impotente”. Basta uma “quebra na glória”, basta ser forçado a promover um declínio no nosso padrão. Assumir necessidades bate de frente com o nosso orgulho. E Deus vem usando isso para moldar muitos de nós nestes tempos bicudos
Convicção 2 – distinguir o que é uma necessidade e uma prioridade na nossa selva de desejos e anseios requer muito bons óculos
Não satisfeito com a primeira resposta, fui insistindo em saber como eles lidavam com os “malandros”, os “pidões”, os “chupins”... você sabe, aqueles que se acostumam a pedir e receber sem trabalhar. E o líder continuou: “dentre os que se apresentam, boa parte não passa pelo crivo do que é uma real necessidade”.
O que é necessidade? O que é prioridade? O que é desejável? O que é capricho, luxo, frescura? Na teoria pode ser extremamente simples (ainda mais se for pra falar dos outros), mas na nossa prática, ai, ai, ai...
Exemplos? Dou alguns meus, para não falar dos outros. Na hora da minha crise, foram inevitáveis algumas questões e frases:
a) “como é que eu, que trabalho como consultor, posso andar de carro popular - manter o carro importado é uma necessidade”. Puro desejo, frescura, longe de ser necessidade;
b) “vamos manter os filhos na escola particular ou não?” (Nossos 3 filhos estudam numa das melhores escolas da região, mas que custa os olhos da cara, “mais os óculos e uma das orelhas”. E “o pior” é que vão muito bem). Decidimos manter, abrindo mão do que fosse preciso. Não é exatamente uma necessidade, mas concluimos ser uma prioridade, dada por Deus para nossa vida. Adeus outros gastos, adeus empregada, adeus viagens de férias, adeus um monte de etceteras.
Mas creio que ainda não aprendemos nem metade da lição. E me atrevo a perguntar se alguém julga que aprendeu, que julga saber discernir com clareza, diante de Deus, o que é realmente necessário e prioritário na sua vida e o que é um mero capricho. Não há nada mais humano e carnal do que chamar nossos desejos de necessidades. Compramos nossos desejos com cartão de crédito, e na hora da pagar a fatura falta dinheiro pra pagar a conta de luz. E aí vamos pedir ajuda à igreja? A Deus?
Convicção 3 – o compromisso que Deus assume conosco divide-se em dois: a) suprir as nossas necessidades básicas e b) patrocinar as prioridades que Ele tem para nós. E só!
Deus não prometeu pagar todas as 36 prestações do seu carro Okm. Pense nisso antes de assinar o contrato. Deus não manda atrasar o aluguel ou o condomínio porque este mês temos que pagar o novo celular da filha adolescente e o tênis importado (o mais caro da loja) do filho mais velho. Deus não mandou pedir uma cesta básica na igreja enquanto compramos um aparelho novo de DVD “que estava na oferta”. Deus nos garantiu sustento, e garantiu patrocinar os projetos que Ele tem para nós. Veja bem: os projetos que Ele tem para nós.
Lembrando a frase do Pastor daquela igreja: “o compromisso é o de suprir necessidades que sejam realmente necessidades, não patrocinar estilos de vida”.
Como estamos nessa história?
(Carlos Sider)
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