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Qdo. a religião perde o poder.
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  SERMÃO EM AMÓS 5.14-27
TEMA: QUANDO A RELIGIÃO PERDE O SEU PODER
DATA: 27/09/06

INTRODUÇÃO

O povo de Israel fazia contínuas peregrinações aos santuários de Betel, Berseba e Gilgal, mas não caminhavam na direção de Deus, antes, aprofundavam-se ainda mais no pecado. Eles divorciaram a religião da vida. Eles separaram a teologia da ética. Eles tentaram subornar a Deus com uma religião pomposa, mas acabaram provocando ainda mais sua ira, pois professavam uma coisa e viviam outra bem diferente.
Betel, casa de Deus, lugar do encontro transformador e re-orientador da vida tornou-se o centro da idolatria. O bezerro de ouro e não Deus era o centro daquele culto. Eles iam ao santuário, mas voltavam para casa sem nenhuma transformação.
Berseba, por sua vez, era o lugar onde os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó ouviram as promessas da companhia de Deus, mas Deus não podia estar com o povo, pois este estava mergulhado nos seus mais escandalosos pecados (Js 7.12). Deus honra aqueles que o honram, mas desmerece aos que o desprezam (1Sm 2.30). Deus se torna para aqueles que se tornam a ele (Ml 3.7) e se achega àqueles que se chegam a ele (Tg 4.8).
Gilgal era o lugar que sinalizava a posse da herança e das grandes conquistas e vitórias, mas em vez de conquista em Gilgal enfrentaram o desterro e as derrotas mais amargas. Uma religião falsa não pode nos ajudar em relacionamento com Deus nem com o próximo; muito menos pode nos socorrer no dia da calamidade. As esperanças nutridas e alimentadas por uma doutrina falsa e uma ética trôpega desvanecem-se inexoravelmente.
Consideremos a prática religiosa vivida nos templos de Berseba e Gilgal.

I. ESTARÁ DEUS CONOSCO MESMO EM BERSEBA?

1. Uma presunção arriscada (5.14)

Os israelitas presumiam ser os herdeiros da promessa de Berseba, “O Senhor está contigo”. Eles acreditavam que Deus estava com eles (5.14) e olhavam para o futuro com total serenidade e confiança (5.18). Eles pensavam que entre eles e Deus não havia qualquer barreira e tudo estava em paz e harmonia. Eles desejavam o dia do Senhor, pois pensavam que estariam com ele (5.18). Mas, quando esse dia chegasse, suportariam eles essa vinda (Ml 3.2)?
Dionísio Pape diz que a religião divorciada da moral e da compaixão é anátema aos olhos do Senhor. Ele promete estar com o seu povo somente quando este busca o bem e aborrece o mal (5.15).

2. Um despreparo inegável (5.14)

Amós não podia apoiar esse otimismo do povo. Eles queriam subornar Deus com uma religiosidade pomposa, mas falsa. Eles não tinham consciência da grandeza de Deus. Eles tinham uma percepção deficiente de Deus. Achavam que estavam em paz com ele exatamente porque não o conheciam. Amós, então, enfatiza a grandeza de Deus. Três vezes Amós se refere a Deus como o Senhor dos Exércitos (5.14,15,16). Eles haviam despojado Deus de sua majestade. A tranqüilidade deles era perigosa. A comunhão que pensavam ter com Deus era falsa. Eles estavam despreparados para viver com Deus e para se encontrarem com ele no seu dia glorioso (5.18,20).

3. Um choro profundo (5.16,17)

Amós passa a descrever como a mensagem de Deus e as circunstâncias produziram um choro profundo em Israel. Houve pranto em todos os lugares e entre todas as pessoas. Houve choro por toda parte nas cidades (praças e ruas) e no interior (lavrador e vinhas); pranto de todos, dos durões (lavradores) e dos chorões (os que sabem prantear). Esse pranto interrompe os negócios na cidade e o labor no campo. Amós diz que esse pranto de morte penetrará até mesmo nas vinhas, onde em geral só se ouvia o som de regozijo. Nas praças de todas as cidades, onde a injustiça tinha sido praticada, e em todos os mercados, onde enganavam e roubavam, haveria profunda lamentação. Esse choro é resultado do julgamento inescapável (5.19).

4. Um juízo inescapável (5.19)

O cerco de Israel pelos soldados assírios seria algo tão aterrador, que Amós usa a figura de duas feras e um réptil peçonhento para descrever a cena. A fuga do leão não traz total alívio, pois em seguida vem o ataque do urso. A fuga deste, mesmo fechando a porta no seu focinho não traz segurança nem afasta o perigo, pois subitamente, o fugitivo é picado por uma cobra peçonhenta ao encostar a mão trêmula na parede. Cada fuga e escape transformam-se numa armadilha até o ponto da vítima perecer sob o bote fatal da serpente. Essa era a condição dos israelitas. Eles seriam inescapavelmente cercados e derrotados pelos assírios. Durante três anos resistiram o cerco da cidade de Samaria. Mas, o curto e aparente livramento não impediu que fossem finalmente dominados, escravizados e destruídos.

5. Uma falsa esperança (5.18,20)

O pranto e o julgamento inescapável são seguidos de trevas totais (5.20). Eles pensavam que a vinda do Senhor seria para estar do lado deles. Essa era a promessa de Berseba: Deus está conosco e contra os nossos inimigos. Mas esse dia não era de luz, mas de trevas. Eles se encheram de falsas esperanças. Quando o dia de Deus chegar, Deus será contra eles, porque eles não se prepararam para esse encontro (4.12).
Os israelitas pela sua hipocrisia enganavam-se a si próprios. No meio de todo o seu pecado, eles ainda desejam o Dia do Senhor, porque pensavam que esse dia seria de glória, vitória e livramento para todo o Israel, sem considerar o relacionamento de seu coração com Deus. Porém, quando buscam o Dia do Senhor como escapatória de seus presentes problemas, estão passando de um perigo para outro pior.
Essa esperança já se tornara em doutrina para os israelitas, mas ao invés de triunfar sobre os seus inimigos no dia do Senhor, Israel será castigado, devastado, humilhado e entregue ao seu inimigo. Poucos anos depois, os assírios, a caminho para provar o seu poder na luta contra o Egito, assolaram o reino de Israel, e levaram cativa a nação rebelde que desapareceu entre as nações.
Dionísio Pape afirma que como no dia de hoje, muitos naquela época falavam do Dia do Senhor como solução final de todos os problemas, sem perceberem que a sua vinda marcaria o julgamento do povo do Senhor (5.18). Israel pensava que a vinda do Senhor marcaria o julgamento das nações ímpias e o reconhecimento por elas da supremacia de Israel. Tragicamente, a nação não entendeu que o Dia do Senhor seria o julgamento do próprio povo de Deus.
Tanto no Velho como no Novo Testamento, os judeus nunca acreditaram que fosse possível Deus julgar o seu povo. A destruição de Samaria em 722 a.C. e o exílio babilônio de Judá em 587 a.C. são advertências contra toda presunção. Dificilmente aprendemos as lições da História. É salutar lembrar que a matança de um milhão de judeus fervorosos para com a Bíblia, mas desobedientes a ela, no ano 70 de nossa era, é mensagem para nós.
Warren Wiersbe, fazendo uma síntese sobre a questão do Dia do Senhor, diz que esse dia seria um dia de desespero e de pranto (5.18a); seria um dia de trevas (5.18b,20) e um dia de destruição (5.19).

6. Uma passagem perturbadora (5.17)

Qual a causa deste desatino e desespero (5.16,17a)? Qual a razão deste juízo inescapável (5.18,19)? Qual o motivo dessas trevas espessas (5.20)? A passagem de Deus pelo meio do povo (5.17b)! Eles que presumiam que Deus estava com eles, na verdade não conheciam a Deus. Quando Deus passa no meio deles com toda a sua majestade e glória, eles se desconcertam e se perturbam. Crabtree diz que normalmente não havia nada mais desejável do que uma visita do Senhor ao seu próprio povo. Mas o Senhor iria passar pelo meio de Israel como o Deus da justiça. Parece uma alusão à passagem do Senhor pelo Egito quando matou os primogênitos das famílias egípcias (Ex 11.4; 12.12). Naquela ocasião o Senhor passou por cima das casas de Israel, e poupou os seus filhos. Mas nesta ocasião, o motivo do Senhor, na passagem pela terra de Israel, é o de punir a injustiça do povo. No Egito o castigo foi infligido de forma miraculosa; em Israel será pela mão dos assírios, diz Feinberg.

II. AS IMPLICAÇÕES DE ESTAR COM DEUS E ANDAR COM ELE

1. A necessidade imperativa de fazer o bem (5.14)

Ninguém pode pressupor que Deus está com ele, se não pratica o bem. Deus é o sumo bem. Deus é bom. Não há nele treva nenhuma. Quem anda com Deus precisa refletir seu caráter. Amós destaca quatro verdades importantes:
Em primeiro lugar, a busca do bem tem dois aspectos distintos. É tanto um buscar quanto um abster. É tanto um amar como um aborrecer (5.14,15). A ética cristã tem dois lados claros: abominar o mal e amar o bem. Não basta apenas fazer o bem, é preciso odiar o mal. Não é suficiente indignar-se com as coisas erradas, é preciso fazer o bem. Para amar o bem é absolutamente necessária uma mudança radical no modo de pensar, sentir e viver. A aversão é tão necessária quanto a afeição. Nós temos alguma coisa para odiar e alguma coisa para amar. Nossa simpatia e antipatia precisavam ter a mesma intensidade. Nós não podemos amar a Deus sem odiar o mal. Como o bom médico que não trata os sintomas, porém as causas, que procura não apenas aliviar a dor, mas remover a causa, assim Amós não trata apenas com os sintomas do pecado, mas chega até suas raízes.
Em segundo lugar, na prática do bem a ação precede a emoção. Amós coloca a ação antes da emoção. O fazer vem antes do sentir. O cristão faz o bem não apenas porque deseja, mas porque é o certo. O certo tem que ser feito porque é certo e não apenas porque provoca em nós gostosas emoções. Vivemos pela fé na verdade e não movidos pelos sentimentos.
Em terceiro lugar, a prática do bem implica na mudança do tecido social (5.15). Preocupar-se com o juízo à porta é abraçar a ética social que vê o semelhante como objeto do amor e não da exploração. É parar de explorar o pobre. É parar de subornar os juízes. É parar de comprar sentenças. É parar de oprimir os fracos. É deixar de viver nababescamente, entesourando riquezas mal adquiridas em seus castelos. A palavra juízo aqui significa a justiça humana que se distingue da justiça que vem de Deus. Os juízes de Israel ficaram encarregados de julgar retamente. A palavra hebraica significa o padrão divino da justiça que os juízes tinham a obrigação de observar em todas as suas decisões. Mas a corrupção prevalecia nos tribunais públicos que funcionavam na porta, e não havia mais equidade na administração da justiça.
Em quarto lugar, a prática do bem produz vida verdadeira (5.14). A obediência produz vida e a desobediência morte. O caminho da santidade é o caminho da vida. A felicidade não é um lugar aonde se chega, mas um certo jeito de caminhar. Buscar a Deus (5.4) e buscar o bem (5.14) são a mesma cousa e ambos levam à vida plena. Quando andamos com Deus, praticamos o bem e quando o fazemos, encontramos a vida.

2. Mesmo quando Deus exerce o seu juízo, jamais deixa de ser gracioso (5.15)

Amós chamou o povo de “restante de José” (5.15). José foi o homem em quem a promessa de Berseba se realizou mesmo quando as circunstâncias eram totalmente desfavoráveis. Nas situações mais amargas Deus era com José. Quando ele foi vendido como escravo, o Senhor era com José (Gn 39.2); quando as coisas foram de mal a pior e ele foi preso, o Senhor era com José (Gn 39.21) e com o passar dos dias na prisão, o Senhor era com ele (Gn 39.23). Finalmente, quando as esperanças sumiram no horizonte, José foi levado da cadeia para a sala do trono num salto espantoso porque o Faraó olhou e disse: “Acharíamos, porventura, homem como este, em quem há o Espírito de Deus?” (Gn 41.38). O Senhor era com ele!

III. GILGAL, HERANÇA OU EXÍLIO?

À primeira vista parece que Amós está ensinando a possibilidade da perda da salvação. Mas, note que ele fala do remanescente que não foi dizimado (5.3), bem como do restante de José que foi poupado (5.15).
Quando o povo fazia suas peregrinações a Gilgal, eles tinham em sua mente a promessa segura da vitória, a posse da terra, a derrota de seus inimigos e a herança recebida de Deus. Tudo isso era o que representava Gilgal para eles. Mas, em vez de herança, eles enfrentariam o desterro (5.27). A certeza deles não passava de devaneios porque a vida deles estava em descompasso com a teologia que professavam.
Jesus advertiu que, a aparente confiança daqueles que o chamam de Senhor, profetizam, expulsavam demônios e até fazem milagres em seu nome, mas ao mesmo tempo praticam a iniqüidade serão banidos da sua presença (Mt 7.22,23). Deus nos salva do pecado e não no pecado. A única prova de que somos salvos é se somos santos.
Amós diagnostica a religiosidade no templo de Gilgal e alerta sobre alguns pontos importantes:

1. Havia muita religiosidade e nenhuma vida (5.21-23)

A vida precede ao culto. Primeiro Deus se agrada da nossa vida, depois ele aceita o nosso culto. A Bíblia diz que Deus agradou-se de Abel e de sua oferta, mas rejeitou a Caim e a sua oferta (Gn 4.4,5). Hofni e Finéas pensaram que a simples presença da arca poderia livrá-los das mãos dos seus adversários. Eles contavam certamente com a presença de Deus entre eles e por eles, mesmo vivendo em pecado. Mas, a arca foi roubada, eles foram mortos, trinta mil homens sucumbiram diante do inimigo e a glória de Deus se foi de Israel (1Sm 4.5-22) O profeta Isaías disse que Deus estava cansado do culto que o povo lhe trazia, porque havia iniqüidade associada ao ajuntamento solene (Is 1.11-13). O profeta Malaquias ao ver o povo oferecendo para Deus a sobra e o resto e não as primícias chegou a dizer que era melhor fechar a porta do templo do que acender inutilmente o fogo no altar (Ml 1.10). Amós, por sua vez, diz que o povo de Israel ia ao templo de Gilgal e demonstrava uma religiosidade fabulosa: festivais, sacrifícios, ofertas e música em abundância. Eles observavam seus ritos religiosos com muita assiduidade (5.21). Eles mantinham os rituais como se tudo estivesse na mais perfeita ordem na relação com Deus e uns com os outros (5.22). O culto deles era alegre e cheio de entusiasmo (5.23). Havia muita música e celebração. Mas tudo isso, não passava de barulho aos ouvidos de Deus, porque o culto era divorciado da vida.
O apóstolo Paulo fala que o culto que agrada a Deus é o culto racional (Rm 12.2), ou seja, o culto lógico e coerente, onde a liturgia e a vida têm coerência e consistência. Toda a vida é cúltica. Tudo o que fazemos é uma liturgia de celebração ao nome de Deus. Se o culto que oferecemos no templo estiver divorciado do culto que prestamos a Deus no lar, no trabalho e no lazer, esse culto é desprovido de qualquer significado aos olhos de Deus. Warren Wiersbe diz que não importa o número de “atividades religiosas” de que participarmos; se não amarmos nossos irmãos e nosso próximo, não poderemos verdadeiramente adorar e servir ao Senhor.

2. O desgosto de Deus quando o culto tem empolgação, mas não transformação (5.21-23)

Amós usa várias expressões fortes para demonstrar o total desgosto de Deus com o culto pomposo, animado e festivo dos israelitas: Aborreço, desprezo... Não tenho nenhum prazer... Não me agradarei... Nem atentarei... Afasta de mim o estrépito... Não ouvirei (5.21-23). J. A. Motyer diz: “A religião deles era zelosa, excessivamente suntuosa, aparentemente sincera, emocionalmente satisfatória; mas a religião, não chegando até Deus, é falha em tudo”. George Robinson afirma que Amós ensinou a Israel que a religião significa muito mais que o mero culto, e que não é a fumaça ou o aroma do holocausto o que é aceitável a Deus, mas o incenso de um coração sincero e leal.

3. A prática da justiça deve preceder o ritual religioso (5.23,24)

O povo de Israel falhou quando pensou que o culto com rituais pomposos e a liturgia com músicas animadas substituiriam a prática da justiça e a vida de santidade. Eles iam ao templo, mas a vida não era transformada. Eles cantavam, mas não adoravam. Eles corriam a Gilgal, mas não deixavam correr os ribeiros de justiça e de retidão. Não havia conexão entre a religião e a vida. Eles eram liturgicamente avivados, mas eticamente reprovados. Eles tinham carisma, mas não caráter. Eles cantavam bonito no templo, mas viviam de forma horrenda aos olhos de Deus. Eles diziam amar a Deus, mas oprimiam o próximo. Deus estava cansado de espetáculo de uma religião show. Deus odeia a fraude jubilosa que se faz passar por culto divino.

4. Retidão de vida e não abundância de rituais é o que agrada a Deus (5.24)

Justiça e retidão têm mais valor aos olhos de Deus do que rituais religiosos. A prática religiosa sem vida transformada não pode agradar a Deus. Obediência é mais importante do que sacrifício. Ninguém pode provar seu amor por Deus sem amar o próximo. Amós diz que Deus está mais interessado que a justiça prevaleça nas ruas do que as músicas sacras sejam entoadas nos templos. Com respeito à justiça, Amós fala de abundância (corra como águas) e de eternidade (como ribeiro perene). Os ribeiros na Palestina correm impetuosamente no tempo das chuvas, mas nos períodos da seca eles ficam fraquinhos, ou sem água alguma. O Senhor pede a justiça constante e perene. A religião sem estas qualidades de retidão e justiça não é a religião bíblica. A religião bíblica é vigorosa, constante e fiel.
Amós é um reformador. Ele sabia que a religião não pode ter apenas uma relação vertical. Ela passa também pela relação horizontal. Ele quer justiça social entre homem e homem. Toda a sua mensagem serve como prelúdio para a definição que Tiago dá da verdadeira religião: “A religião pura e sem mácula para com o nosso Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas em sua aflição, e guardar-se incontaminado do mundo” (Tg 1.27).
Sem ética social e sem a prática da justiça a religião não tem nenhum valor. Os tempos são outros, mas os pecados ainda são os mesmos. A igreja evangélica brasileira cresce, mas não tem ética. Ela, dominada pelo ufanismo, sinaliza tomar o Brasil de assalto, mas quanto mais ela cresce mais o país se corrompe. Os políticos evangélicos, com raras e honrosas exceções lideram o ranking da corrupção. A imprensa brasileira proclama que as três classes mais desacreditadas no Brasil são os políticos, a polícia e os pastores. A igreja hoje, à semelhança de Israel, mudou a mensagem para agradar a si mesma e perdeu no cipoal de seus muitos rituais os absolutos morais. A igreja tem pompa e visibilidade, mas não transparência e irrepreensibilidade.
Amós deixa claro que Deus procura vida e não culto. Ele busca adoradores e não adoração (5.23,24; Jo 4.24). Ele se interessa mais por caráter do que por carisma; ele se agrada mais da vida do que desempenho.
É digno de nota, que em todos os rituais dos israelitas, um esteve deliberadamente ausente, a oferta pelo pecado. Não havia convicção de pecado neles. Eles não sabiam o que era arrependimento. A relação deles estava errada com Deus e com o próximo. Havia uma grave falha na teologia e na ética deles. Eles desconectaram a doutrina da vida. Eles abandonaram a verdade e se perderam moralmente. A impiedade desemboca na perversão.

5. O sincretismo religioso produz exílio e não posse da herança (5.25-27)

Os israelitas tinham sido exuberantes nos ritos e relaxados na vida. Eles separaram o que Deus uniu e misturaram o que Deus jamais permitiu. Quando a doutrina se corrompe, a vida se deteriora.
Russell Norman Champlin diz que desde o princípio da nação, sua adoração fora falsamente orientada. Com freqüência, não era para Iavé, mas para o bezerro de ouro, para a lua, para as estrelas, para Moloque e para outros deuses falsos que muitos traziam sacrifícios e ofertas durante os 40 anos de perambulações pelo deserto.
Warren Wiersbe diz que Deus pediu do povo de Israel fé, obediência e amor, mas no Monte Sinai, logo depois de prometerem solenemente servir a Deus, os israelitas adoraram um bezerro de ouro (Ex 32.1-8). Além disso, seus antepassados pecaram oferecendo sacrifícios a falsos deuses (At 7.42,43). Depois que foram introduzidos na terra da promessa, agora já na terceira geração, o povo voltou-se para os ídolos das nações a seu redor (Jz 2.10-15). Deus os disciplinou ao permitir que essas nações escravizassem Israel em sua própria terra. Contudo, de acordo com a mensagem de Amós para o povo, teriam de deixar a terra e ir para o exílio, onde quer que os assírios os enviassem.
Amós revela que a religiosidade de Israel tornara-se sincrética. Eles eram atenciosos até mesmo com as cerimônias religiosas dos outros deuses (5.26). J. A. Motyer descreve esse fato assim:
Os deuses da Assíria ocupavam os corações de Israel muito antes dos exércitos assírios ocuparem as ruas e as cidades de Israel: Sicute, o deus de guerra assírio, identificando com o planeta Saturno, chamado Quium, estava ali em Israel, cultuado pelo próprio povo que tão assiduamente afluía a Betel, a Berseba e a Gilgal. Que blasfêmia (5.26a) trocar Iavé, Deus onipotente, o soberano (5.16) pelo “rei sicute”. Que loucura adorar uma estrela em lugar do criador das estrelas (5.26b). Que estupidez exaltar como Deus aqueles “que fizestes para vós mesmos” (5.26b). Mas lá estava tudo aquilo; o ritual dos santuários, divorciado da Palavra de Deus, não podia lhes dar nenhuma garantia de salvação.
Em vez da posse da terra em Gilgal, eles sofreram uma derrota amarga e um desterro humilhante. Eles foram levados cativos para a terra cujos deuses já haviam conquistado seus corações. Feinberg diz que a sentença judicial de Deus contra essa monstruosidade espiritual é o exílio. Todo o reino devia ir para o cativeiro além de Damasco, referência clara à Assíria. Motyer diz: “Deus não vai viver infinitamente com o mau cheiro da religião falsa em suas narinas e com esse barulho em seus ouvidos”.